quarta-feira, 26 de março de 2008

DOMINGO II DE PASCUA (J. ALDAZABAL)

DÍA DEL SEÑOR RESUCITADO
La experiencia gozosa y dinámica de la primera comunidad en la Pascua debería verse, hoy de un modo especial, como prototipo de la nuestra cada domingo. El primer día de la semana, y de nuevo el día octavo, o sea, siempre en domingo, la comunidad apostólica experimentó la presencia de su Señor, primero sin Tomás y luego con él, y "se llenaron de alegría". El Señor les dio su Espíritu, les envió como el Padre le había enviado a El, les dio el encargo de la reconciliación ("a quienes perdonéis los pecados...").
El tono de la homilía, pascual y positivo, podría hoy apuntar claramente a la realidad del domingo cristiano. También nosotros estamos convencidos de la presencia del Señor (según el Misal, IGMR 28, con el saludo "El Señor esté con vosotros", el presidente "manifiesta a la comunidad reunida la presencia del Señor"). También nosotros le descubrimos en su Palabra ("Cristo, por su Palabra, se hace presente en medio de sus fieles": (cf.IGMR 7. 9. 33). También nosotros nos gozamos de la presencia y la donación de Cristo que se hace nuestro alimento en cada Eucaristía.
El domingo, la Pascua semanal, el día que dedicamos a Cristo. O mejor, el día que Cristo Resucitado, presente en nuestra vida los siete día de la semana, nos muestra su cercanía de un modo especial. Como a los apóstoles, nos da su Espíritu, nos comunica su paz, nos envía a anunciar la reconciliación y alaba nuestra fe...
Nuestra reunión eucarística dominical es algo más que cumplir un precepto o satisfacer unos deseos espirituales. Vale la pena presentar los valores del domingo cristiano en unos tiempos en que está peligrando su misma existencia, o al menos su sentido profundo.
(J. ALDAZABAL MISA DOMINICAL 1991, 7)

2° Domingo da Páscoa (Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa)

A Comunidade

A Liturgia desse domingo,
revivendo ainda a alegria pelo Cristo Ressuscitado,
nos apresenta a NOVA COMUNIDADE,
que nasce da Cruz e Ressurreição: A IGREJA.
A sua missão consiste em revelar aos homens a vida nova,
que brota da ressurreição.

As leituras ilustram essa realidade...

A 1a Leitura descreve a Comunidade cristã de Jerusalém (At 2,42-47) :

- É uma "Comunidade de irmãos", PERSEVERANTES:
- no Ensino dos Apóstolos: à CATEQUESE
- na Comunhão de Bens: à CARIDADE (Partilha).
- nas Celebrações: à LITURGIA: Orações no Templo e
Eucaristia nas casas: "Partir o pão".

- Uma Comunidade que dá testemunho,
provocando admiração e simpatia do povo e atraindo novos membros.

* Essa comunidade ideal, descrita por São Lucas, quer recordar
o essencial daquilo que toda comunidade deve ser:
um Modelo à Igreja de Jerusalém e às igrejas de todas as épocas:
É uma Comunidade de irmãos, reunidos à volta de Cristo,
animada pelo Espírito, que tem por missão testemunhar na história a Salvação.
- Em nossa comunidade, estão presentes hoje esses elementos?

A 2a Leitura lembra que pelo Batismo nos identificamos com Cristo.
Essa identificação com ele nos coloca em obediência ao Pai
e na entrega aos nossos irmãos.
É o caminho que conduz à Ressurreição. (1Pd 1,3-9)

Salmo: "Porque eterna é a sua Misericórdia..." (Domingo da Misericórdia...)

O Evangelho nos apresenta a Comunidade dos Apóstolos.
Jesus vivo e ressuscitado é o CENTRO da Comunidade cristã.
Ao redor dele, a Comunidade se estrutura e
se anima a vencer o "medo" e a hostilidade do mundo. (Jo 20,19-31)

Os APÓSTOLOS estão trancados...apavorados... sem paz...

CRISTO: rompe as barreiras e aparece no 1º dia da semana...
- Oferece: - A PAZ... o PERDÃO ... torna-os Mensageiros do perdão...
- O ESPÍRITO SANTO: "Sopra": lembra o sopro criador de Deus...
- Envia: "Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio..."
- Exige: FÉ: - Para Tomé que quer ver para crer:
"Felizes os que crêem sem terem visto..."

+ Portas Trancadas:
Cristo abre as portas daquela Comunidade... e os envia ao Mundo...
A presença de Jesus ressuscitado é fonte de coragem e de paz...
E o Espírito Santo dará a força para cumprir sua missão.

+ A PAZ: Jesus oferece três vezes a Paz: "Shallon" (= Paz total).
- Dá a Paz aos apóstolos e depois os envia como mensageiros da paz.
- Essa Paz, muitas vezes, só é possível pelo caminho do PERDÃO...

+ Por isso, Cristo oferece o Sacramento do Perdão: CONFISSÃO:
"Aqueles a quem perdoardes os pecados..."
* Pecadores, uma vez perdoados, são enviados a perdoar em nome de Deus.
à Você já fez a sua confissão Pascal nesse ano?

+ Tomé: afastado da Comunidade, quer provas, segurança: "Ver para crer..."

- Jesus: comprova sua "Divina Misericórdia", cujo dia hoje celebramos:
aceita o desafio e vai ao encontro do apóstolo incrédulo...

- Tomé, voltando à Comunidade, encontra o Cristo Ressuscitado e
faz sua profissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus".

* É na COMUNIDADE que encontramos as provas que Jesus está vivo.
Quem não participa da Comunidade não ouve a saudação de Paz,
não prova a alegria da Páscoa do Senhor,
nem recebe o dom do Espírito Santo.
Quem não se encontra com a Comunidade
não se encontra com o Cristo Ressuscitado.

- A Tomé e a nós, Cristo continua repetindo:
"Felizes os que acreditam mesmo sem terem visto..."

+ Tudo acontece no 1º Dia da Semana: É uma alusão ao DOMINGO,
dia em que a Comunidade é convocada a celebrar a Eucaristia:
é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos,
com a Palavra proclamada, com o Pão de Jesus partilhado,
que se descobre Jesus Ressuscitado.

- Cada Domingo deve ser uma pequena Páscoa...
em que renovamos o nosso Batismo, a caminho da vida Plena...

* O "Nosso Domingo" é de fato "O Dia do Senhor?"

A Liturgia nos questiona:
- A Comunidade é o local do nosso encontro com o Ressuscitado?
- Na Comunidade, somos perseverantes no mesmo caminho...
vivendo a alegria, a fraternidade, o perdão, a paz,
que o Cristo ressuscitado veio trazer,
ou ainda trancados vivemos o clima de medo?

- Podemos, com sinceridade, dizer, que Jesus é nosso "Deus e Senhor"?

2° Domingo da Páscoa (Valmor da Silva)

Comunidades pascais

Quando a dúvida, a tristeza ou a depressão querem tomar conta das pessoas, Jesus ressuscitado mostra suas chagas e diz: “Põe teu dedo aqui... não sejas incrédulo, mas crê” (Jo 20,27). Quando a comunidade está de portas fechadas, com medo, Jesus ressuscitado ordena: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Quando as nações estão em guerra, Jesus ressuscitado se apresenta diante delas e propõe: “A paz esteja convosco” (v.19.21.26).
São assim as nossas comunidades de hoje, como as dos tempos dos primeiros discípulos. Há desânimo, dúvidas de fé, interpretações confusas, propostas sem sentido, projetos contrários ao Evangelho. Em nossa sociedade não é diferente. Há doenças, assaltos, corrupção, injustiça e guerra. Cada comunidade cristã deve ser um foco de protesto contra toda essa situação. O Evangelho de hoje nos recorda as armas mais importantes para esta ação cristã.
Para começar, vem Jesus, “pondo-se no meio deles” (v.19). Ter Jesus como centro de nossas comunidades é o começo de tudo. Não se pode construir sobre outro fundamento que não seja o Jesus ressuscitado.
O primeiro dom do ressuscitado é a paz. No breve trecho do evangelho de hoje, por três vezes Jesus repete: “A paz esteja convosco”. Desejando a paz, ele havia se despedido rumo à paixão (Jo 16,33). Agora volta, com a mesma paz, tendo superado vitoriosamente a morte, e rompe, com este gesto, o medo que ainda prendia os discípulos.
Porém uma vez recebida a paz de Jesus, a comunidade é convidada a abrir suas portas e a vencer o medo. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). O sopro de Jesus recria a comunidade, transforma aquelas pessoas em novas criaturas, prontas para vencer a luta contra o pecado. Como no início, o Criador soprava o hálito vital sobre a humanidade, Jesus agora sopra o seu espírito para formar novas criaturas, livres e corajosas: “Recebei o Espírito Santo”.
O dom da paz e o sopro do Espírito refazem a comunidade e a preparam para a missão. Após o dom da paz e do Espírito, a comunidade abre-se para um espaço de perdão dentro do qual as pessoas livram-se das amarras do pecado e passam a viver uma vida nova. O perdão torna-se de fato uma ação terapêutica de libertação pessoal e comunitária.
O Ressuscitado porém não é uma ilusão. A ressurreição está ligada à realidade da cruz. Por isso Jesus mostra as marcas dos cravos nas mãos e da lança no peito. Ele é glorioso e vencedor, mas conserva os sinais da cruz e da dor. Essa é a realidade que fortalece a comunidade. Jesus está vivo, ressuscitado em nosso meio, mas os sinais da paixão continuam nos incomodando. É preciso perseverar na luta para ver a vitória definitiva.
Enfim, entra em cena Tomé. Dentro de sua comunidade, ele percebe a presença de Jesus ressuscitado. Tomé quer tocar o Cristo glorioso, ressuscitado, mas apalpa as marcas do sofrimento. Ele tornou-se o modelo da pessoa que precisa ver para crer. Mas seu exemplo é positivo para quem busca comprovar os fatos, buscar provas, confirmar as verdades. Mais ainda, diante das evidências, Tomé se rende e adere com a mais alta confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus” (v.28). Jesus aproveita a confissão de Tomé para lançar uma bem-aventurança sobre todos nós: “Felizes os que não viram e creram”.
Nós estamos vivendo este tempo pascal, de felicidade. Os olhos da fé nos permitem crer, após séculos de testemunho de outras pessoas que experimentaram a mesma felicidade. Essa fé nos permite ouvir o convite para a missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.
A fé na ressurreição não pode ser desligada da fé na cruz. Como afirma a segunda leitura de hoje, nossa fé é “mais preciosa do que ouro que perece, cuja genuinidade é provada pelo fogo” (1 Pd 1,7). Essa prova de fogo consiste em superar as adversidades de nosso mundo e lutar por um novo modelo de sociedade, dentro dos parâmetros da paz.
A liturgia nos fornece um modelo exemplar, na segunda leitura. Traz um retrato das primeiras comunidades cristãs, de Jerusalém. “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). São atitudes concretas para experimentar a fé na ressurreição e que se constituem em testemunho concreto diante das demais pessoas. Certamente era um modelo de comunidade que questionava profundamente os padrões da época. Temos carência, em nossos dias, de mais comunidades que “ponham tudo em comum”, “dividam os bens segundo as necessidades de cada um” e “partam o pão pelas casas”.

Segundo Domingo de Páscoa

Domingo da Misericórdia do Senhor
A liturgia deste Domingo apresenta-nos essa comunidade de Homens Novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus: a Igreja. A sua missão consiste em revelar aos homens a vida nova que brota da Ressurreição.Na primeira leitura temos, na “fotografia” da comunidade cristã de Jerusalém, os traços da comunidade ideal: é uma comunidade fraterna, preocupada em conhecer Jesus e a sua proposta de salvação, que se reúne para louvar o seu Senhor na oração e na Eucaristia, que vive na partilha, na doação e no serviço e que testemunha – com gestos concretos – a salvação que Jesus veio propor aos homens e ao mundo.No Evangelho sobressai a ideia de que Jesus vivo e ressuscitado é o centro da comunidade cristã; é à volta d’Ele que a comunidade se estrutura e é d’Ele que ela recebe a vida que a anima e que lhe permite enfrentar as dificuldades e as perseguições. Por outro lado, é na vida da comunidade (na sua liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que os homens encontram as provas de que Jesus está vivo.A segunda leitura recorda aos membros da comunidade cristã que a identificação de cada crente com Cristo – nomeadamente com a sua entrega por amor ao Pai e aos homens – conduzirá à ressurreição. Por isso, os crentes são convidados a percorrer a vida com esperança (apesar das dificuldades, dos sofrimentos e da hostilidade do “mundo”), de olhos postos nesse horizonte onde se desenha a salvação definitiva.
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quinta-feira, 13 de março de 2008

Domingo de Ramos (Pe. Carlo)

O caminho da quaresma nos trouxe até o dia de hoje, domingo em que abrimos à meditação do nosso coração, numa forma mais intensa e comunitária, os últimos e misteriosos momentos da vida de Jesus. A celebração litúrgica de hoje se desenvolve em duas partes que dão a sensação da evidente contradição que se têm diante de Jesus. A alegria e exultação messiânica da primeira parte conflitam com a solenidade e austeridade da segunda. Os cantos e gestos de enaltecimento de Jesus parecem aos poucos dar lugar a um profundo silêncio, à ausência de comentos que a celebração desperta com a leitura da Paixão de Jesus. O barulho dos ramos que agitamos perde-se na sensação de vazio, no sentimento de inutilidade das palavras perante aquilo que só deve ser contemplado e só pode ser percebido com a inteligência do coração.
Permito-me somente acompanhar a leitura e partilhar alguns sentimentos com a esperança que possam aproximar-nos mais de Jesus.
O evangelista Mateus oferece à nossa reflexão a narração da Paixão sob o prisma do último ato da progressiva revelação de Jesus. Não é por acaso que o ingresso em Jerusalém, com o qual se dá inicio ao desfecho da vida de Jesus, começa com uma pergunta que faz a multidão: «Quem é este?». É a mesma pergunta a encontramos nos lábios dos Apóstolos, nos primórdios de sua experiência junto com Jesus; naquele dia em que estavam com medo de afundar junto com sua barca, varrida pelas ondas do mar da Galiléia. Perguntavam-se uns aos outros: «Quem é este?». Este questionamento, que acompanhou por muito tempo a vida do pequeno grupo de discípulos; agora estava na boca de toda uma multidão, dos mesmos que abanavam seus ramos, que gritavam “hosana”... sem saber para “quem”. Será a última vez, no evangelho de Mateus, que alguém vais se perguntar: «quem é este?».
A multidão que festeja acredita saber quem é Jesus, por isto O acolhe em Jerusalém como acolhia os antigos reis de Israel, estendendo seus mantos no caminho por onde ele andaria (2Rs 9,13). O gesto, por si é significativo pois o “manto” -assim chamado-, de fato era a túnica, da qual ninguém, jamais se separava. A túnica era tão ligada à pessoa que a usava, que a própria legislação judaica proibia deixar um homem sem “túnica”, nem mesmo quando este a tivesse penhorado por dinheiro.
Separar-se espontaneamente do manto, colocá-lo aos pés de Jesus, indicava assim o sentimento de renuncia, mesmo de um direito inalienável. Indicava assim a disposição em colocar a própria vida “aos pés” de alguém. Indicava a opção de renunciar aos próprios direitos. Gesto muito bonito, rico de valores. Gesto que somente pode ter sentido por causa da adesão espontânea e incondicional a Jesus. Gesto que poderíamos e deveríamos fazer de uma vez! ... e renovar dia após dia, se quisermos preparar uma entrada digna de Deus em nossa vida.
Contudo, como sempre acontece quando tentamos “enquadrar Jesus” dentro de um nosso esquema, também a multidão caiu num grave mal-entendido. É verdade que Jesus oferece todo si mesmo para nós, é verdade que Ele sempre se mostrou e continua mostrando-se atento às nossas mais profundas necessidades, mas isto não significa que Ele se sujeite às nossas exigências. Na multidão hosanante coexiste um dúplice sentimento: por uma lado a boa disposição a deitar seus mantos aos pés de Jesus, por outro, porém a expectativa de que o Rei enaltecido seja o “senhor” que resolve de uma vez os problemas. Sabemos que a multidão estava esperando, precisava de um “rei” que a libertaria da opressão estrangeira, quase um novo “Judas Macabeu”, aquele que anos antes havia congregado os israelitas num levante popular contra os estrangeiros.
Não era esta a visão de Jesus. Para eles, como para Judas, Jesus se demonstraria um “falido”, um traidor da causa...Tudo porque o homem espera uma coisa e Deus quer dar uma outra. É assim que inda agimos com Ele muitas vezes.
A multidão, os discípulos, todos parecem “saber” quem é Jesus, ainda Pilatos perguntará desesperadamente: «Quem és tu?». É possível saber quem é Jesus somente se formos capazes de acompanhar até o fim a Sua lógica, nunca se pararmos pela metade quando as nossas expectativas parecem não coincidir exatamente com o que imaginamos que Jesus tenha que nos dar.
Assim como é fácil “hosanar” um rei ao qual atribuímos o poder de resolver nossos problemas, igualmente é fácil esquecer, quando o Senhor não age prendendo-se aos nossos parâmetros, que um dia quisemos colocar o nosso “manto” a seus pés.
É difícil que nos recordemos que um dia demos a nossa adesão incondicional, quando Ele nos conduz por um caminho que nem sequer havíamos imaginado.
Quando isto acontece, aos poucos retomamos, um a um, nossos “direitos”, os mantos que havíamos entregado a Jesus quando esperávamos que Ele nos conduzisse aonde nós queríamos.
Se trata de pequenos gestos, pequenas atitudes; “mantos” que retomamos um a um, progressivamente, como sendo um nosso “direito”, quando Jesus se revela diferente de como O havíamos imaginado.
Eis então a imagem de como se pode e como se deve seguir a Jesus: o amor-sentimento, que conduz a fazer gestos de grande valor, mas que escondem o desejo de que Deus se comporte segundo o nosso parâmetro, deixa o seu lugar, se transforma em amor-adesão numa fé adulta, de “discípulo”. Esta exige, sem dúvida, maior maturidade e coragem. No entanto é mais comprometedora e menos cheia de sensações gratificantes... e nem todos estão dispostos a tanto.
Foi assim que o “hosana” da multidão, pouco depois se transformará no «crucifica-o» por um único motivo: Jesus não se sujeitou a deixar-se instrumentalizar nem delimitar. Ele é o que é. Jesus morrerá sem manto algum, nem aquele das multidões nem aquele que estava nas mãos dos soldados. Mostrará “quem é” revestido somente de seu mistério, tingido com o sangue, sangue de quem dá sem se importar com as definições de quem quer que seja.
Enquanto vivo ninguém pôde, entender “quem” ele era. O Evangelista, no entanto, nos indica que foi possível conhecer a Jesus; sim, mas somente após sua morte e por primeiro por alguém que a vida havia trazido perto da cruz de Jesus: um soldado, pagão. Este, livre de preconceitos, estava aberto diante do evento da cruz, que o tocou interiormente. Não há como compreender Jesus se nos esquivarmos da cruz. Jesus não faz crescer a nossa fé usando milagres e atos prodigiosos; Ele não desce da cruz para demonstrar que é Deus (como lhe haviam sugerido os seus acusadores) a fim de que não tivéssemos em nós uma fé “do prodigioso”, mas sim a fé da “participação” confiante.

Domingo de Ramos (Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa)

Celebramos hoje o DOMINGO DE RAMOS.

A liturgia apresenta dois momentos bem distintos:
- A ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM,
com a procissão de Ramos... num clima de alegria...
como GESTO de FÉ e de COMPROMISSO.

- O INÍCIO DA SEMANA SANTA, com a Leitura da Paixão do Senhor,
na missa, relembrando o caminho do sofrimento e da Cruz.
= Dois momentos distintos da vida de Jesus: Triunfo e Humilhação.
Jesus se apresenta em Jerusalém propondo a paz e recebe a violência...

As Leituras Bíblicas nos ajudam a viver o clima dos mistérios que celebramos:
A 1ª leitura apresenta um Profeta anônimo, chamado por Deus
a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação.
Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e
concretizou, com teimosa fidelidade, os projetos de Deus. (Is 50,4-7)

* Os primeiros cristãos viram neste "servo sofredor" a figura de Jesus.
Ele é a Palavra de Deus feita carte, que oferece a sua vida
para trazer a salvação aos homens.
A 2ª Leitura é um lindo Hino Cristológico. (Fl 2,6-11)
Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas, exemplo de toda criatura.
Enquanto a desobediência de Adão trouxe fracasso e morte,
a obediência de Cristo ao Pai trouxe exaltação e vida.
Ele se despojou de sua condição divina, assumiu com humildade
a condição humana, para servir, para dar a vida,
para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai.
Esse caminho não levará ao fracasso, mas à glória, à vida plena.
E é esse mesmo caminho de vida, que a Palavra de Deus nos propõe.
O Evangelho convida a contemplar a PAIXÃO e MORTE de Jesus,
segundo São Mateus. (Mt 26,14-27,66)

A morte de Jesus deve ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida:
Anunciar um mundo novo de justiça, de paz e de amor para todos os homens.

Para concretizar este projeto,
- Jesus passou pelos caminhos da Palestina "fazendo o bem" e anunciando
um mundo novo de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos.
- Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem os pecadores.
- Ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos,
não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus.
- Ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e
aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o "Reino";
- E avisou os "ricos" (os poderosos, os instalados), de que o egoísmo,
o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.

è O projeto libertador de Jesus entrou em choque
com a atmosfera de egoísmo e de opressão que dominava o mundo.
- As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia
de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos
que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios.
- Não estavam dispostas a arriscar, a desinstalar-se e
a aceitar a conversão proposta por Jesus.
- Por isso, prenderam Jesus, julgaram-no, condenaram-no e
pregaram-no numa cruz. A morte de Jesus é a conseqüência lógica do anúncio do "Reino":
resultou das tensões e resistências, que a proposta do "Reino" provocou
entre os que dominavam o mundo.
Podemos, também, dizer que a morte de Jesus é o ponto mais alto de sua vida;
é a afirmação mais radical e mais verdadeira daquilo que Jesus pregou
com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço.
Aprofundemos alguns dados que são exclusivos
da PAIXÃO SEGUNDO SÃO MATEUS:
- Mateus relaciona os fatos da Paixão como Cumprimento das Escrituras:
Mateus escreve para cristãos, provenientes do judaísmo...
por isso, quer demonstrar que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas.
- No Getsêmani, Jesus condena a violência contra o servo do sacerdote...
O caminho do Pai passa pelo amor e pelo dom da vida.
Por isso, os discípulos não podem recorrer à violência.

- Só no Evangelho segundo Mateus aparece o relato da Morte de Judas.
O episódio deixa clara a falsidade do processo e a inocência de Jesus.
Mateus sublinha o desespero e o arrependimento de Judas, e
deixa clara a inocência de Jesus.
- Só Mateus fala do sonho da mulher de Pilatos e da lavagem das mãos.
Quer deixar claro que os pagãos reconhecem a inocência de Jesus e
o próprio povo o rejeita.

- Só Mateus descreve os fatos que acompanharam a morte de Jesus:
"O véu do Templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e
as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos".
Para Mateus, são sinais que mostram que, apesar do aparente fracasso de Jesus,
Deus está ali, para se manifestar como o salvador e libertador do seu Povo.

• Finalmente, só Mateus narra o episódio da "guarda" do sepulcro.
Para os cristãos, o sepulcro vazio era a evidência de que Jesus tinha ressuscitado.






+ Concluindo: O que é CELEBRAR A PAIXÃO E A MORTE de Jesus?
- É contemplar a mais espantosa história de amor.
Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades,
experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações,
tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai;
e, estendido no chão, atraiçoado, abandonado, incompreendido,
continuou a amar.

+ O que significa para nós hoje CONTEMPLAR A CRUZ,
onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus?
- Significa assumir a mesma atitude e
solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo:
os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos,
os que são privados de direitos e de dignidade…

- Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo;
significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens;
significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor…

Viver deste jeito pode conduzir à morte,
mas o cristão sabe que o amor gera vida nova e
introduz na nossa carne os dinamismos da Ressurreição...

Estamos dispostos nessa Semana Santa abrir o coração
para acolher o mistério do infinito amor de Deus,
que doa sua vida por amor a nós?
Ele quer um espaço em nosso coração...

Domingo de Ramos (Frei Faustino Paludo, ofm cap.)

Hosana ao Filho de Davi!Estamos em Jerusalém, o cenário em que acontecerá a Páscoa de Jesus, a nossa Páscoa. A entrada de Jesus em Jerusalém é lembrada mediante a bênção dos Ramos e a proclamação do evangelho de Mateus. Por essa comemoração, a Igreja recorda que a entrada triunfal vai perpassar os diferentes momentos da Paixão de Cristo: da palma da vitória e do triunfo, transformada em cinzas na Quarta-feira de Cinzas, brotarão a vida e a imortalidade. Da árvore seca da cruz, brotará a vida, a vida em abundância para todos.A procissão dos ramos faz memória do senhorio de Jesus. Ele é recebido pelo povo como o Filho de Davi, o Messias. A multidão que aclama o Messias, cantando glórias ao Senhor e abanando folhas de palmeiras, evoca o desejo ser parte ativa na realização das antigas promessas. Jesus aceita a aclamação popular. Montado em um jumento, ele mantém o caráter pacífico e humilde. Mateus vê na entrada de Jesus em Jerusalém o cumprimento das antigas promessas messiânicas. "Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora anunciado pelo profeta". O Filho de Deus entra em Jerusalém como rei messiânico, humilde e pacífico. É o servo paciente que se encaminha para enfrentar pacificamente, sem violência, a humilhação e o aparente fracasso, impostos pela maldade humana. Mas Ele chega à cidade, em direção à qual peregrinou por longos dias, para ser vitorioso: vencerá pela violência da não violência do amor. O caminho do Messias e de todos os seguidores é paradoxal: pelo fracasso ao triunfo, pela derrota à vitória, pela humilhação à glória, pela morte na cruz à ressurreição. A liturgia do Domingo de Ramos revela a grande contradição entre a relação do povo e o Filho de Deus e sua missão libertadora. Ao mesmo tempo em que o aclama com: "Hosana ao Filho de Davi!", dias depois, pede sua condenação, gritando: "Crucifica-o! Crucifica-o!". A cruz e a morte despontam no horizonte da recusa do projeto messiânico: "O caminho do amor que se entrega a Deus e aos humanos, em favor da justiça e da paz, de forma mansa e humilde". A proclamação litúrgica da Paixão de Jesus, entendida por Mateus como a realização do desígnio revelado pelas Escrituras, exemplifica aos convertidos do judaísmo como superar as dificuldades no seguimento do Messias, sofredor, humilhado e assinalado pela maldição da cruz. Jesus é o que aceita o cumprimento da vontade do Pai, apesar de sua angústia e de suas humanas resistências ante a morte. Fazer a vontade do Pai é o projeto de vida para seus seguidores ao longo dos tempos. Como Jesus, eles também estão comprometidos com a libertação, sendo fiéis à Palavra de Deus até a morte.O Domingo de Ramos é marcado pelo mistério, de uma parte, do despojamento e da entrega total e, da outra parte, pelo senhorio e glória do Filho de Deus. Por isso, canta-se: "Hosana o Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor". Por outro lado, o prefácio deste domingo expressa com grandeza o mistério da Paixão do Senhor: "Inocente, Jesus quis sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe nova vida!".