quarta-feira, 4 de junho de 2008

10° Domingo do Tempo Comum (Pe Carlo)

“Chefar-Nahum”, “cidade de Nahum” (um profeta), hoje aparentemente pequena em relação ás nossas cidades, onde os relacionamentos humanos freqüentemente se dissolvem na amplidão das dimensões; esta cidade foi então o proscênio de um fato que marcou de modo inesquecível os habitantes da época e que, se o soubermos ler como nos foi transmitido, não deixa de impressionar qualquer pessoa em que o desejo de liberdade for maior do que o da a segurança. Sigamos a leitura do Evangelho fazendo com que o nosso ânimo se deixe conduzir pelo Espírito que moveu o próprio escritor, o objeto da história narrada hoje.
A leitura começa dando-nos indicações quanto a Jesus: «Partindo dali». Embora o protagonista da narração seja o próprio Evangelista Mateus (como entendem a maioria dos estudiosos), ele não fala de si mesmo, não narra a sua história como sendo “sua”, pois é de Jesus que procede o evento que modificou a sua vida e que escandalizou aquele povo. O Evangelista se interpreta como alguém que, simplesmente, se encontra no “caminho de Jesus”. Com profunda humildade, com aquele agradecimento de quem se sente agraciado por um benefício não merecido, Mateus narra a sua história, como a de alguém que se percebe “encontrado” por Jesus, assim como o Pastor encontra a sua ovelha perdida. Mateus não é o centro da própria história! Eis então, que desde o início o Evangelista nos recorda a correta posição diante de Jesus tão bem expressa com as palavras do Evangelista: «Não foram vocês que escolheram a mim, mas fui eu quem vos escolheu» (Jo. 15,16). Muitas vezes, quando refletimos sobre a nossa própria história, sobre a nossa vocação, quando precisamos rever as nossas posições principalmente em ocasião de decisões importantes e que nem sempre têm volta, cometemos o perigoso engano de cair na mentalidade laicista pela qual tudo depende e somente depende do indivíduo. Freqüentemente consideramos o nosso caminho de fé como o resultado de um processo no qual fomos nós que decidimos nos inserir por uma série de fatores e no qual caminhamos com uma série de objetivos... e assim esquecemos que, se estamos no caminho da fé, é porque fomos importantes por Alguém que Ele não quis fazer a menos de nós. Por pura bondade nos convidou a fazer parte da história que Deus desenha no mundo dentro da história que os homens traçam no mundo. Como é bom ser importante para alguém! Como é bom ser importante para Jesus! Tem algo que paga esta sensação?
Sabemos que a Cidade era passagem obrigatória para os viandantes que percorriam longos trajetos, pois estava situada no entroncamento das duas grandes artérias viárias (a “Via Maris” e a “Via Regum”) que, junto com a “Rota das Montanhas”, garantiam com segurança e rapidez o deslocamento de mercadorias, tropas e peregrinações anuais rumo a Jerusalém. Jesus percorria estas estradas em suas viagens e Cafarnaum era lugar obrigatório de passagem. Foi ali que o Senhor conheceu Pedro e outros dos discípulos; a Cidade lhe era familiar. Provavelmente Jesus devia conhecer Mateus bem antes do fato hoje narrado. Se assim for, será mais fácil compreender o sentido da palavra “misericórdia” que o Evangelista cita. Precisamos conhecer pelo menos alguns detalhes da vida de um “Publicano” para que possamos interpretar corretamente o sentido da narração que nos revela um mundo novo: o mundo da “misericórdia”. Era chamada “Publicanos” (homens públicos) uma categoria de pessoas que constituíam uma classe à parte, muito mal-vista, tida como uma praga. A cobrança de impostos na época -antes da reforma administrativa do Imperador Augusto- era feita por licitações: quem ganhava a licitação de arrecadação depositava imediatamente um valor estabelecido no tesouro do Rei (no caso de Mateus o Rei era Herodes Antipa) e, em seguida, podia recuperar a soma cobrando das pessoas o que achasse necessário (algo semelhante à concessão que o Estado hoje dá às Concessionárias de rodovias etc...). Naturalmente não estava claro quanto os Publicanos pudessem cobrar (pois as contas eram desconhecidas pelo povo) fato pelo qual estes empreiteiros extorquiam até 50% a mais do que o devido, inclusive porque criavam uma série de sub-empreitas, (terceirização) fragmentando de tal modo a arrecadação que o povo era explorado sem possibilidade de controle. Obviamente a exploração era tanto mais possível quanto mais houvesse conivência com as autoridades militares, que garantiam o procedimento. Do ponto de vista religioso e moral os Publicanos eram considerados mais pecadores do que os pastores e o “povo da terra”; ficando na mesma linha das prostitutas e ladrões.
Após estes esclarecimentos, voltemos à leitura.
O Evangelista descreve a si mesmo como «um homem»; tinha apenas um homem por trás de um publicano odiado, por trás de uma profissão iníqua, tinha apenas um homem preso ao seu trabalho ao seu mundo, à sua profissão: «sentado». O seu mundo poderia ter ficado para sempre um banco de impostos, uma motivada corrida atrás do lucro, uma ganância justificada... como sempre acontece quando o mundo, o nosso mundo, não é mais o lugar onde expressamos “quem” somos, mas sim o lugar onde somos aprisionados por aquilo que fazemos. Estava ali apenas um homem, precisando de algo que desconhecia, de um mundo novo, de uma fascinante aventura. Foi isto que Jesus viu quando a opinião pública, o julgamento dos bem-pensantes não via nada mais do que o mal que aquele publicano fazia. Eis então que se abre a nós uma nova maneira de ver o homem: qualquer pessoa nunca se identifica nem define pelo que ela faz; sua dignidade, apesar de qualquer situação que esteja vivendo, vale muito mais do que o erro que possa estar cometendo. O homem é mais do que o seu pecado, e isto é o que Jesus veio resgatar, valorizar, santificar.
Marcos e Lucas nos informam que o Publicano tinha por nome “Levi”; aqui, o próprio Evangelista omite esta informação: para ele a vida começou a partir do momento em que Jesus teve “misericórdia” dele. A sua vida começou dando-lhe um novo nome; por todos foi chamado “Mateus”, que significa “dom de Deus”. É isto que seria a vida do Publicano daquele momento em diante, um dom de Deus, o reconhecimento da gratuidade de Deus. Traria em si o dom de uma existência com sabor, com vida, prenhe de um sentido que ultrapassa o que um «homem» sentado no seu mundo pode imaginar. Ele carregaria em si a vida como “dom de Deus”, os outros discípulos chamariam ele “dom de Deus” em favor de muitos!
Um dom, é assim que deve ser considerado o instante em que Jesus intervêm em nossa vida abrindo aquela porta que nos permitirá de não mais ficarmos “sentados”. Um grandíssimo dom de amor que o Senhor tem a dar ao mesmo tempo para quem é convocado e para quem usufruirá as riquezas da vida de quem é convocado. Como é diferente a existência quando a interpretamos e descobrimos como um dom de Deus! Ela se transforma num constante sentimento de alegria e gratidão, que brota, espontâneo, principalmente quando sabemos que fomos chamados por pura bondade. Não podemos não recordar que a mesma atitude permeia toda a vida de Paulo, o qual se considera «indigno de ser chamado apóstolo» e que, somente «por gratuidade» ter-se tornado o que era (cfr. 1Cor. 9-10). Carregar em si próprio a ação gratuita de Deus, contemplar esta ação, confere à existência um sentido diferente, permeia os atos, as decisões, os sorrisos e as lágrimas de um sentido que supera a compreensão humana, um sabor que transparece e mina em favor das pessoas que ainda não conhecem o verdadeiro rosto de Deus.
A beleza deste instante narrado ficou gravada na tela de um grande pintor, Caravaggio, que representou o Publicano em trajes da época (1600) -para indicar que o chamado acontece sempre-, numa sala escura onde uma luz perturba a atenção de todos, que estava voltada sobre duas mãos que contam as mesmas moedas; uma luz que rompe a escuridão daquele mundo.
Como Mateus terá interpretado o gesto de Jesus? Evidentemente é muita presunção querer entrar no coração do Evangelista, contudo, creio, alguns pormenores podem nos ajudar a entender o que de Jesus Mateus percebeu. A pista nos é dada pela citação de Oséias: «Quero misericórdia e não sacrifício». Com certeza poderíamos fazer uma leitura desta citação como de um preceito que Jesus dá, não seria de modo algum errado. Todavia se nos colocarmos por outro ângulo podemos ver nisto também o sentimento que Jesus provou. A misericórdia, na linguagem bíblica, é ligada a um sentimento “visceral”, irracional, aparentemente sem lógica. Pode ser comparado ao sentimento de uma mãe que, embora tudo diga que seu filho agiu erradamente, sempre dirá “ele não é assim, foram as más companhias...”. É a lógica do amor que triunfa sobre a lógica comum. Jesus não podia “ver” um homem “sentado” no seu mundo quando, provavelmente por ter conhecido anteriormente o Publicano, via nele não o que era, mas o que seria. A lógica irracional da misericórdia não vê nada mais do que o valor da pessoa, prescindindo de tudo. Vê o que de bom Deus fez, mesmo que isto esteja sufocado, abrutado por situações externas. É a este ponto que Jesus não deixa de oferecer a oportunidade única de se aventurar na seqüela Dele sem prometer nada mais do que Ele mesmo. Um pescador poderia voltar a ser pescador, mas um Publicano não! Era questão de uma decisão. As decisões são carregadas de verdadeiro amor quando dão respostas generosas, sem excesso de avaliação: «... levantou-se e seguiu a Jesus». Jesus abriu a porta de um mundo novo.

10° Domingo do Tempo Comum (www.ecclesia.pt)

A Palavra de Deus deste 10º Domingo do Tempo Comum repete, com alguma insistência, que Deus prefere a misericórdia ao sacrifício. A expressão deve ser entendida no sentido de que, para Deus, o essencial não são os actos externos de culto ou as declarações de boas intenções, mas sim uma atitude de adesão verdadeira e coerente ao seu chamamento, à sua proposta de salvação. É esse o tema da liturgia deste dia. Na primeira leitura, o profeta Oseias põe em causa a sinceridade de uma comunidade que procura controlar e manipular Deus, mas não está verdadeiramente interessada em aderir, com um coração sincero e verdadeiro, à aliança. Os actos externos de culto – ainda que faustosos e magnificentes – não significam nada, se não houver amor (quer o amor a Deus, quer o amor ao próximo – que é a outra face do amor a Deus). Na segunda leitura, Paulo apresenta aos cristãos (quer aos que vêm do judaísmo e estão preocupados com o estrito cumprimento da Lei de Moisés, quer aos que vêm do paganismo) a única coisa essencial: a fé. A figura de Abraão é exemplar: aquilo que o tornou um modelo para todos, não foram as obras que fez, mas a sua adesão total, incondicional, plena, a Deus e aos seus projectos. O Evangelho apresenta-nos uma catequese sobre a resposta que devemos dar ao Deus que chama todos os homens, sem excepção. O exemplo de Mateus sugere que o decisivo, do ponto de vista de Deus, é a resposta pronta ao seu convite para integrar a comunidade do «Reino».

Cristo, o médico, vem curar os doentes(São Nicolau Cabasilas (c. 1320-1363), teólogo leigo grego)

A Vida em Jesus Cristo, Livro 6
Cristo desceu à terra, e começou por chamar aqueles que ainda não tinham chamado por Ele, e que nunca tinham sequer pensado Nele: «Eu vim chamar os pecadores», diz. Se veio à procura daqueles que não O desejavam, o que fará àqueles que Lhe rezam? Se amou aqueles que O odiavam, como poderá afastar aqueles que O amam? Como dizia São Paulo: «Se, de facto, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de Seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela Sua vida» (Rom 5, 10).Consideremos, pois, em que consiste a nossa oração. É certo que não somos dignos de obter aquilo que convém aos amigos pedir e receber, mas antes aquilo que é dado a servos rebeldes, a devedores faltosos. Não invocamos o nosso Mestre para que Ele nos dê uma recompensa, ou um favor, mas para que Ele tenha misericórdia de nós. Pedir a Cristo, amigo dos homens, a misericórdia, o perdão ou a remissão dos pecados, e não partir de mãos vazias após esta oração – a quem convém tal coisa, senão a devedores, dado que «não são os que têm saúde que precisam de médico»? Em suma, se convém aos homens elevarem a voz para Deus, implorando a Sua piedade, só poderão fazê-lo os que têm necessidade de misericórdia, os pecadores.Invoquemos, pois, a Deus, não somente com a boca, mas também com os desejos e os pensamentos, a fim de aplicarmos a tudo aquilo por meio do qual pecámos o único remédio que pode salvar-nos, porque «não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar» (Act 4, 12).

Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa

Quero Misericórdia

A Liturgia desse domingo nos convida a refletir
sobre o espírito com que devemos viver a nossa Religião.
Essa vivência não pode se reduzir ao cumprimento externo
de uns Mandamentos e de uns atos de culto.
A Religião deve ser baseada na MISERICÓRDIA de Deus,
e vivida com espírito de AUTENTICIDADE e ACOLHIDA.

As leituras ilustram com alguns exemplos:

A 1ª Leitura é uma exortação à conversão do POVO
diante do perigo iminente de uma invasão Síria." (Os 6,3-6)

O povo começou a oferecer muitos sacrifícios para "controlar" Deus.
Mas a conversão não era sincera, nem perseverante,
por isso o Profeta Oséias denuncia com uma imagem muito bonita:
"Que farei de ti, Judá? O vosso amor é como o orvalho da manhã,
que se desfaz aos primeiros raios do sol..."
E acrescentou: "Eu desejo amor, bondade e MISERICÓRDIA,
bem mais que sacrifícios e holocaustos

Deus não defende uma Religião sem culto,
mas reprova um culto vazio de espírito, de verdade e de vida.
Deus quer um coração verdadeiramente em comunhão com ele e
capaz de gestos concretos de amor, de ternura, de bondade,
de misericórdia em favor dos irmãos.

* Essas falsas motivações podem estar presentes ainda hoje em nós.
Deus torna-se um pronto Socorro nas emergências.
- Por isso, Ele continua nos dizendo:
"Desejo amor, bondade e misericórdia,
bem mais que vossos sacrifícios, e muitas práticas de piedade..."
Se essas práticas não tiverem uma profunda motivação interior
tornam-se vazias e até desprezadas pelo próprio Deus...

Na 2ª leitura, São Paulo apresenta o exemplo de ABRAÃO:
O que o tornou um modelo para todos, não foram as suas obras,
mas sua adesão total e incondicional a Deus e aos seus projetos. Rm 4,18-25)

O Evangelho narra o chamado de MATEUS
e a Refeição de Jesus com "os pecadores". (Mt 9,9-13)

Mateus era um cobrador de impostos para as autoridades romanas.
Por isso, era discriminado, um excluído da vida social e religiosa.

- Jesus passou diante dele e o convidou para "segui-lo..."
No Reino, há lugar para todos, mesmo os "desclassificados".
- Mateus aceitou imediatamente... E para agradecer a atenção recebida,
ofereceu um jantar ao Mestre, convidando amigos e conhecidos...
"Sentar-se à mesa" com alguém significava estabelecer
laços profundos e familiares com essa pessoa...
- Os fariseus, que se orgulhavam como bons praticantes da religião,
se escandalizaram e criticaram severamente o mestre (com os apóstolos):
"Por que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?"
- CRISTO explica sua conduta:
"As pessoas que têm saúde não precisam de médico,
mas só as que estão doentes."
E, citando palavras de Oséias, lembra que para Deus
não basta o cumprimento exato das leis e dos atos de culto.
Ele prefere uma religião baseada no amor e na misericórdia divina.
"Eu quero misericórdia... e não sacrifícios.
De fato, eu não vim chamar os justos, mas os pecadores."

Lendo o Evangelho, notamos um fato muito freqüente:
- A PREFERÊNCIA de Cristo pelos pecadores e
- O DESPREZO de Cristo pelos fariseus "fiéis praticantes".

+ Por que será?

- Porque nos pecadores, uma vez esclarecidos,
encontrava humildade, sinceridade e generosidade sem limites.
Exemplos: Mateus, a Pecadora, o Fariseu e o Publicano...
- E nos fariseus encontrava muito orgulho, falsidade, formalismo:
"Esse povo me louva com os lábios, mas seu coração está longe de mim..."

+ Essas Duas tentações, nós também podemos ter:

- Ficar satisfeitos porque "praticamos" um amontoado de ritos e mandamentos.
Achamos que já garantimos a nossa salvação. Deus não pensa assim...

- Ser orgulhosos e puritanos, achando-nos melhores do que os outros e
excluir do nosso grupo os que não pensam ou não fazem como nós...
Jesus nos propõe que a comunidade deve ser espaço de acolhida
para todos aqueles que o mundo exclui e marginaliza.

* Quais são as nossas motivações religiosas?

- Assemelhamo-nos ao comportamento de Cristo, ou ao dos fariseus?

- Procuramos ser AUTÊNTICOS naquilo que professamos e
ACOLHEDORES para com os que se encontram afastados?

- O nosso modo de ser e de agir ATRAI ou REPELE
os que estão afastados de nossa comunidade?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

9° Domingo do Tempo Comum (Pe. Carlo)

O trecho do Evangelho que acabamos de ler encerra em Mateus uma coletânea de ensinamentos sobre o conjunto da fé cristã, chamada “Discurso da montanha” (Mt. 5-7). Com grande probabilidade esta longa coleção de palavras, nasceu da necessidade dos primeiros pregadores itinerantes que precisavam de um compêndio que recolhesse num único livrinho os ensinamentos de Jesus. Com estes pressupostos podemos entender mais facilmente a expressão: «estas minhas palavras», pois não se trata de preceitos ou regras que devem ser cumpridas, mas sim do conjunto da visão que Jesus tem sobre o mundo, as relações dos homens com Deus e as relações destes entre si. Trata-se de um todo, descrito com incrível acuidade nos seus pormenores, que nos permite penetrar a leitura do mundo e de sua história que Jesus têm e o seu estilo de encarnar o homem novo.
O processo do pensamento religioso de Israel, como também o de muitas religiões da época, dificilmente era capaz de superar a idéia de que, para ser justo diante de Deus e conquistar a vida eterna o essencial fosse seguir os preceitos e as regras que se encontram depositadas em livros ou na sua interpretação (por exemplo o Talmud). Com Jesus, porém, estamos diante de algo novo: se tentássemos organizar esquematicamente ou por assunto os ditos de Jesus, tentando extrair deles alguns princípios teríamos um trabalho muito pouco proveitoso e algumas surpresas, descobriríamos uma série de aparentes “incoerências”, de contradições etc. o que não acontece, por exemplo, com uma legislação. É bem aqui que está a novidade: a fé do discípulo de Jesus não se identifica com a obediência a normas, mas com a adesão a uma pessoa. Ora, uma pessoa é uma pessoa, não um tratado. A pessoa age movida por um valor que está na base da sua vida e que orienta tudo, palavras, atos e atitudes que às vezes parecem ser contraditórias... Uma pessoa é sempre um mistério indefinível, que não pode ser enquadrado em esquemas (esta foi a tentação de Davi, dos fariseus e rabinos e muitos outros como Judas o Iscariotes ou algumas visões de Jesus contemporâneas). Seguir a Jesus é, então penetrar o Seu mundo, o Valor que rege o sentido do Seu existir no mundo dos homens, a Sua relação com o Pai… Mas isto é impossível somente apegando-se a uma ou outra frase, como pretendem alguns que constroem a sua fé sobre palavras de Jesus isoladas completamente do conjunto. «Estas minhas palavras» não são as normas que Jesus dá, mas sim o caminho para poder penetrar o Valor, a motivação, o porquê… enfim a Sua «vontade», o seu “coração” – diria um hebreu.
A passagem que lemos se abre imediatamente com o alerta sobre um possível mal-entendido no qual pode cair um discípulo. São colocadas, uma diante da outra, duas situações; a primeira significada por estas palavras: «Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus» e a segunda com: «aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus». Entre uma e outra encontramos uma clara separação: «mas». Com a primeira Jesus não critica a dimensão da oração ou da vida interior, seria um grave engano interpretar assim o que Ele disse; não podemos encontrar aqui uma crítica ou uma oposição entre “espiritualidade” ou “prática” (como já aconteceu em certas épocas), mas sim um alerta contra a ilusão de que dizer «Senhor, Senhor» seja suficiente para «entrar» no onde está o coração de Jesus, entrar no Seu mundo. Jesus se limita em dizer: «nem todo aquele». O tipo de relacionamento que pressupõe esta maneira de agir é sem dúvida fundamental, pois não é possível que sejamos capazes de construir uma relação madura com Deus se não formos capazes de estabelecer uma relação de intimidade e profunda afetividade.Todavia o alerta de Jesus é sobre o perigo de que a oração não seja mais para Deus mas para nós mesmos, para ficarmos apaziguados com as sensações; e pior, quando estas não são mais capazes de satisfazer o nosso emocional pode existir o perigo de correr atrás de estímulos sempre mais diversos, esquisitos, que acabam alienando do mundo real quem que se achava “discípulo” de Jesus mas que na verdade corria atrás de si mesmo usando um Jesus imaginário.
O que resguarda o verdadeiro discípulo de Jesus deste risco?
A chave nos é oferecida pela segunda proposição: «Aquele que faz a vontade». Como primeiro ato, vamos nos livrar daquele preconceito materialista onde o “fazer” se reduz a um simples “aplicar”, “cumprir”; se assim fosse estaríamos novamente caindo na atitude de alguns judeus que Jesus tanto criticou. O Evangelista poderia ter usado vários verbos para indicar este “fazer”; alguns indicam o movimento das mãos (prassw), outros o esforço de construir (ergazomai) etc., no entanto a opção de Mateus para tentar expressar o que Jesus pensava se definiu na escolha de um verbo (poiew) que significa “dar forma”, “tornar visível”, “fazer com que exista, que possa ser apalpado”. Evidentemente isto dá uma conotação diferente a quanto lemos; e ainda mais quando descobrimos que Mateus usa o mesmo verbo usado no livro de Gênese, quando Deus “dá forma”, “existência”, “ser” a o que não tinha forma, existência, ser. Eis, então que, com a expressão “fazer”, Jesus põe o discípulo em direta relação com a continuidade do projeto de salvação que Deus estabeleceu para o mundo, para o homem e suas relações. O discípulo “realiza”, no sentido de que torna visível, possível para o mundo, identificável para quem o queira o grande desejo de Deus, sua «vontade». Isto não porque “trabalha com as suas mãos” mas porque encarna em si mesmo o que Deus tem em si mesmo, o que Jesus tem em si mesmo. Diríamos, usando uma expressão de S. Afonso: “Quem faz a vontade de Deus se torna um homem segundo o coração de Deus” (Com. in Ps.29). Tudo isto acontece não com o simples esforço humano nem com a autodeterminação do homem, mas sim com um lento, paciente, atento processo de assimilação entre o coração do discípulo que ama o Senhor e por isso O segue como pessoa, e o coração de Jesus que continuamente se comunica ao discípulo. Trata-se, então de um diálogo feito de profundo desejo de fusão, não de mero pragmatismo nem sentimentalismo. “Fazer” é acreditar que é possível, é dizer ao mundo: “aqui é possível ver que o Reino não é uma fantasia”. É sonhar o sonho de Jesus, é ser missionário com todo o próprio ser, que diz, que deixa transparecer a cada momento o Valor que rege a própria existência, sem precisar de um excesso de palavras. Creio, que um verdadeiro discípulo só pode ser um grande poeta (a origem da palavra vem do mesmo verbo, “poieo”) ou seja, alguém que é capaz de dar forma, visibilizar, traduzir para todos, algo que existe mas que é dificilmente percebido por todos. O discípulo é um anunciador que faz da sua existência uma poesia a Deus, que deixa transbordar a sintonia da própria vontade com a de Jesus.
O texto afunda ainda mais o seu significado. Nos diz respeito à própria ação humana. Uma vez que o Reino é oferecido às pessoas, uma vez que a Palavra de Deus abre novas perspectivas para o homem, deste momento em diante nenhum ato humano é neutral diante de Deus. A Palavra coloca o homem objetivamente diante de si mesmo e da terrível possibilidade de escolher sabendo que a sua opção não será insignificante diante de um projeto que supera o próprio indivíduo. Ouvindo ou não ouvindo, o homem define a si mesmo como «sábio» ou «insensato», isto porque a história tem um seu desfecho próprio, ela irá na direção que Deus deseja. Símbolo disto são os «ventos e enchentes»: estes vêm para todos, prescindindo daquilo que o homem possa pressupor, imaginar, construir com a sua maneira de perceber a história. Esta segue regras diferentes das que podemos imaginar (e disto tivemos muitas vezes experiência nos séculos: nenhum dos grandes sistemas com os quais se pretendia salvar o mundo funcionou, pois o homem de hoje não é mais feliz do que o homem de ontem). O trecho colocado novamente a pessoa diante da sua responsabilidade para com a história, seus atos não são indiferentes, ouvir ou não comportará um ou outro resultado para o inteiro gênero humano, para o seu “mundo”, a sua “casa”. Como são atuais estas palavras! Principalmente no contexto hodierno em que assistimos a uma progressiva aceitação da desresponsabilização como dado de fato: ninguém é responsável, a culpa é do “sistema”, do “governo”, da “globalização”, da “sociedade” e assim por diante. A desresponsabilização é a regra comum que está se tornando sempre mais cômoda, fácil, que deixa tudo em paz. Mas não é este o homem como Deus o imaginou!
Nós, pessoas de fé, por quanto mínima que for, precisamos pedir diariamente a Deus que seja possível “fazer a Sua vontade”, que seja possível ao homem ver que o Pai é pai e nenhum rival do homem; precisamos pedir diariamente que as pessoas possam descobrir de serem amadas para amarem a Deus e para isso o nosso inteiro ser está envolvido com todas as forças, o coração, a mente.
Permito-me encerrar com algumas simples, sábias palavras de S.Nilo Abade: “Não temos que rezar para que Deus faça o que desejamos, mas para que sejamos capazes de dar vida àquilo que Ele deseja”.

Santo Afraate (?-c. 345), monge e bispo em Niínive, perto de Mossul, no actual IraqueExposições nº 1

«Porque ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que foi posto, isto é, Jesus Cristo» (1Co 3, 11)
Um rei não permanece numa casa que se encontra vazia de tudo. Um rei exige toda uma ornamentação doméstica, por forma a que nada lhe falte. [...] O mesmo acontece ao homem que se torna uma habitação para Cristo-Messias: provê a tudo quanto convém ao serviço do Messias que nele habita, provê às coisas que Lhe agradam.Com efeito, começa por construir o seu edifício sobre a rocha, que é o próprio Messias. Sobre esta rocha faz assentar a fé, e é sobre a fé que se eleva todo o edifício. Para que a casa se torne Sua morada, é-lhe exigido o puro jejum, estabelecido sobre a fé. É-lhe exigida a oração pura, recebida na fé. É-lhe exigido o amor, montado sobre a fé. Tem igualmente necessidade de esmolas, dadas com fé. Que peça a humildade, amada com fé. Que escolha para si a virgindade, apreciada na fé. Que leve para sua casa a santidade, plantada sobre a fé. Que medite igualmente na sabedoria, encontrada na fé. Que peça para si a condição de estrangeiro, proveitosa na fé. Terá de ter simplicidade, combinada com a fé. Que peça igualmente paciência, que é realizada por meio da fé. Que se torne perspicaz pela doçura, adquirida pela fé. Que ame a penitência, que aparece à fé. Que peça ainda a pureza, guardada pela fé. [...] Eis as obras exigidas pelo rei Messias, que habita nos homens que constroem por meio de tais obras. Com efeito, a fé é composta por muitas coisas e adorna-se com muitas cores, porque é semelhante a um edifício construído com diversos materiais, e o seu edifício eleva-se até aos céus. [...]O mesmo se passa com a nossa fé: o seu fundamento é a verdadeira rocha, Nosso Senhor Jesus, o Messias. [...] Este fundamento é a base de todo o edifício. Se alguém acede à fé, está firmado sobre a rocha, isto é, sobre Nosso Senhor Jesus, o Messias. E o seu edifício não será abalado pelas torrentes, nem colocado em perigo pelos ventos, nem se abaterá nas tempestades, porque o edifício foi construído sobre a rocha, que é o verdadeiro fundamento.

9° Domingo do Tempo Comum (Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa)

Os Dois Caminhos

A Liturgia de hoje é um convite a construir nossa vida
sobre o alicerce sólido da PALAVRA DE DEUS.
Quando Ela está no centro de nossa vida, caminhamos
com segurança ao encontro da realização plena.

Na 1ª Leitura, temos um Discurso de Moisés, no final de sua vida.
Ele relembra aos hebreus os compromissos assumidos para com Deus
e os convida a renovar a Aliança com o Senhor.
É um CONVITE a ter a Palavra de Deus sempre presente:
"gravada no coração e na alma". (Dt 11,18.26-28.32)

Moisés mostra DOIS CAMINHOS:
- Se o Povo aceitar, será uma fonte de bênção e de vida...
- Se viver sem ela, será motivo de morte e maldição...
* Para os hebreus, a Salvação consistia na observância fiel à Lei...

Na 2ª Leitura, São Paulo afirma que a observância da Lei não é suficiente.
Deus salva pela fé em Cristo Salvador, não pela observância da lei:
"Agora sem o concurso da Lei manifestou-se a justiça de Deus...
O homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei Judaica..." (Rm 3,21-25a.28)

* Portanto, a Salvação é um dom gratuito de Deus e
não o resultado de nossos méritos pessoais.
Mas supõe as obras da "fé, que atua pela caridade" (Gl 5,6)
As nossas boas obras comprovam a autenticidade de nossa fé.

No Evangelho, temos o final do Sermão da Montanha.
Cristo (o novo Moisés) oferece à Comunidade a nova Lei,
que deve guiar o novo Povo de Deus. (Mt 7,21-27)

Cristo mostra DOIS CAMINHOS:
- Apenas ouvir (ou anunciar) a Palavra de Deus;
- Ouvir (anunciar) e pôr em prática a Palavra de Deus (Dizer e Fazer).
Para ingressar no Reino, é necessário "cumprir a vontade do Pai".

O texto tem duas partes:
Na primeira parte, Mateus oferece critérios para identificar
os falsos profetas, os falsos discípulos, os falsos cristãos:
São aqueles que dizem "Senhor, Senhor", mas não fazem a vontade de Deus;
profetizam, expulsam demônios, fazem milagres em nome de Deus,
mas não mantêm com Deus uma relação de comunhão e de intimidade;
têm Deus nos lábios, mas o seu coração está cheio de maldade…
Falam muito e bem, mas as suas obras denunciam a sua falsidade.
O verdadeiro profeta, o verdadeiro discípulo, o verdadeiro cristão
é aquele que, além das palavras que diz, faz a vontade do Pai.

Na segunda parte, temos a parábola das duas casas:
uma construída sobre a areia e outra sobre a rocha."Quem ouve as minhas palavras e as põe em prática",
constrói sobre a rocha. Ela resistirá aos temporais da vida...

+ O Evangelho de hoje nos afirma que:

- Não basta INVOCAR "Senhor, Senhor", ou ter gestos externos de piedade.
Os ritos externos têm valor enquanto expressão de uma atitude interior
de adesão a Deus e de cumprimento da sua vontade…
Os ritos, as orações, os sacramentos, as práticas religiosas, são excelentes,
se mudam nossas vidas, se nos levam aos atos, se criam em nós disposições tais que, saindo daqui, vamos pedir perdão do mal que fizemos,
se prestamos serviços que tínhamos recusado, restituímos o que não nos pertence,
se nos reconciliamos com aqueles que não vemos mais...

- Precisa FAZER a vontade do Pai
A palavra de Jesus vivida com fidelidade todos os dias,
deve ser a rocha firme sobre a qual construímos a nossa vida cristã.
Deve ser a base dos nossos pensamentos, das nossas palavras e das nossas ações.Muitas pessoas do nosso tempo estão convencidas de que ser cristão
é apenas ter o nome inscrito no livro de batizados de uma paróquia,
ou fazer parte de um movimento, ou estar ligado à comissão de festas,
ou aparecer na Igreja nos casamentos e funerais, ou momentos especiais…

O Evangelho é bem claro:
"Ser cristão" não é possuir um bilhete de identidade que atesta o nosso batismo; mas é procurar viver sempre de acordo com as propostas de Deus.

E nós que tipo de cristãos somos?
Somos cristãos apenas porque um dia na infância os nossos pais nos batizaram,
ou porque nós assumimos todos os dias o compromisso
de "fazer a vontade do Pai que está nos céus?"
Que sentido tem cumprir escrupulosamente os ritos externos da religião e
no resto da vida ignorar os valores de Deus?
* Em que tipo de alicerce queremos construir a casa de nossa vida?
- Sobre a rocha firme da Palavra de Deus ouvida e praticada,
- ou sobre valores efêmeros do dinheiro, do poder, da fama, da glória,
da mentira, da injustiça ou da violência?

O nosso futuro dependerá de nossa escolha atual?